Cultura / Livros

Imagens valorizam espaços históricos que conservam a memória da sétima arte, mesmo marcados pela passagem do tempo

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'EntreSalas', de Sergio Poroger — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

Ao longo de dez anos, o fotógrafo e jornalista Sergio Poroger registrou fachadas e interiores de salas de cinema que encontrou em suas caminhadas por Brasil, EUA, Holanda, Polônia e Argentina. Peneirando milhares de imagens, conseguiu condensar tudo em “EntreSalas”, livro com 82 fotos lançado em agosto.

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Pelo que se vê ali, cinemas de rua permanecem como símbolos de outras eras — a começar pela própria arquitetura. Por dentro e por fora, eles tinham (alguns ainda têm) muito mais personalidade que as salas abertas nas últimas décadas, geralmente alocadas em shoppings. A magia do cinema continua acontecendo lá no escurinho, no telão e sob som estrondoso, com ou sem pipoca, mas seu ambiente externo tornou-se bem insosso. No futuro, não haverá livros sobre as salas de cinema de hoje.

Poroger focou no clássico, na história que sobrevive nas fachadas estilosas, entre corredores, cabines de projeção, telas em silêncio. Encontrou também muito abandono, o que deixa em algumas das suas fotos um tom que oscila ali entre a melancolia, alguma saudade, a resistência dessa arte mais que centenária, o protesto contra a decadência irreversível. Em outros registros, a imponência ainda se faz presente. Em comum a todos, a construção da memória, algo que vai muito além do esfarelamento real das instalações de outrora.

Aqui nesta página, o fotógrafo comenta algumas imagens de “EntreSalas”, projeto que conta também com quatro minidocumentários disponíveis no site www.sergioporoger.com/videos/. Neles, Poroger homenageia personagens que fazem a chamada sétima arte existir mas que vivem (literalmente) na penumbra — como um projecionista, ex-funcionários de cinemas, um argentino que construiu um sala de exibição dentro da própria casa... São ótimas entrevistas que fazem parte de uma investigação que poderia ser infinita: quando se trata de cinema, todo mundo tem pelo menos uma história para contar.

Serviço: EntreSalas’ - Autor: Sergio Poroger. Editora: Maayanot. Páginas: 144. Preço: R$ 198.

Tampa Theatre (EUA)

Tampa Theatre (EUA) — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"No Tampa Theatre, o céu azul intenso parece quase irreal. Contrasta com os vermelhos, laranjas e dourados da arquitetura, criando uma atmosfera muito cinematográfica. Gosto dessa relação entre luz, cor e sombra."

Cine Imperial (Rosário)

Cine Imperial, em Rosário, na Argentina — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"O antigo Cine Imperial permanece na paisagem de Rosário, mesmo sem cumprir mais sua função original. Ocupa praticamente toda a fachada, mas está cercado por sinais muito claros da cidade contemporânea: publicidade, prédios, fios, trânsito. Em frente à fachada marcada pelo tempo, um casal de bicicleta atravessa a cena e acrescenta uma camada humana delicada. Gosto desse contraste entre o que permanece e o que passa: o cinema, monumental e envelhecido, está imóvel, enquanto a cidade segue em movimento, criando novos personagens e histórias diante dele."

Iluzjon (Varsóvia)

Cinema Iluzjon, em Varsóvia — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"Em Varsóvia, a fachada curva do Iluzjon ganhou ainda mais força ao anoitecer. O amarelo intenso da iluminação contrasta com o azul profundo do céu e transforma uma cena simples em algo quase cinematográfico. No centro, uma bicicleta solitária quebra a imponência da arquitetura e traz a presença do cotidiano para a fotografia. A bicicleta parece ter substituído o espectador. Está parada diante do cinema, como se alguém tivesse chegado para assistir a um filme e deixado ali sua presença."

Cine Nazaré (Fortaleza-CE)

Cine Nazaré (Fortaleza-CE) — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"Três homens, três portas, três posições. No Cine Nazaré, em Fortaleza, os homens ocupam a fachada quase como personagens de uma cena. Há uma espécie de teatralidade no ambiente. Os dois trabalhadores e Seu Vavá, o dono do Nazaré, ao centro, parecem estar no palco, enquanto a fachada funciona como cenário. Um de cada lado e outro ao centro, diante da porta fechada. A simetria, as cores e a maneira como se posicionam deram à fotografia algo quase teatral. É uma imagem simples, mas que reúne duas coisas que sempre busquei em 'Entresalas': o cinema e as pessoas ao seu redor."

Theater Tuschinski (Amsterdã)

Theater Tuschinski (Amsterdã) — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"Em Amsterdã, a fachada iluminada do Theater Tuschinski contrasta com as pessoas que atravessam a rua e aparecem quase como sombras. A cidade está em movimento diante do cinema, que aparece como uma espécie de templo luminoso, enquanto as pessoas percorrem o primeiro plano em velocidades diferentes. Gosto desse movimento diante de uma arquitetura tão marcante: enquanto o cinema permanece, a cidade passa diante dele. As luzes quentes, os vultos e o movimento transformam uma noite comum em uma cena quase de filme."

The Movies (Amsterdã)

Bilheteria do The Movies, clássico cinema de Amsterdã — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"Na bilheteria do The Movies, em Amsterdã, Emma Thompson aparece no cartaz enquanto a funcionária ocupa seu lugar atrás do balcão. Aqui, o trabalhador não está apenas implícito: está diante de nós, no seu lugar de trabalho. Fascinante esse encontro quase involuntário entre personagem e vida real. É também um retrato de quem faz o cinema funcionar todos os dias: pessoas que vendem ingressos, recebem o público e fazem parte dessa experiência antes mesmo de o filme começar. A luz quente também dá à imagem uma atmosfera muito bonita, quase de filme antigo."

Cine Art Palácio (Recife-PE)

Bilheteria abandonada do Cine Art Palácio (Recife-PE) — Foto: Divulgação/Sergio Poroger

"Essa fotografia é muito interessante, porque sai completamente da imagem tradicional do cinema, mas continua falando de cinema de rua. No antigo Cine Art Palácio, no Recife, encontrei a bilheteria abandonada cercada pelas marcas do tempo. Avisos, cartazes, intervenções e manequins passaram a ocupar um espaço que antes recebia espectadores. Gosto dessa sobreposição: o cinema já não funciona, mas suas marcas permanecem ali, misturadas à vida cotidiana que continua acontecendo ao redor."
Cine AIP (Recife-PE)
"EntreSalas", de Sergio Poroger — Foto: Divulgação/Sergio Poroger
"Em Recife, subi 13 andares a pé para chegar aos destroços do Cine AIP. Na antiga sala, entre as poltronas, encontrei um grande vão onde antes estaria a tela. Do outro lado, o mar azul e o céu pareciam uma imagem projetada. O que a torna tão forte é o paradoxo: uma sala de cinema em ruínas abre-se para um mar absolutamente vivo. Por um instante, cheguei a duvidar se aquilo era um quadro ou a paisagem real. Dessa descoberta nasceu a foto que virou capa de 'Entresalas'."
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