Reinaldo Azevedo

A depender do que dê, tal dia já foi escrito pela história, pelo cinema, pela literatura. Kássio e Mendonça anunciam o pretérito do futuro

Reinaldo Azevedo
13/10/2026 11:51
O dia depois de amanhã e cartas ao futuro: não resistir nunca foi uma opção
A depender do resultado das urnas, só não vale dizer que a gente não sabe como será “O Dia Depois de Amanhã” (2004), para lembrar um dos filmes-catástrofe de Roland Emmerich, especialmente na cúpula dos tribunais superiores. Kássio Nunes Marques e André Mendonça — respectivamente, presidente e vice do TSE e também membros do STF — se oferecem como nossos guias nos círculos eventualmente vindouros do inferno. Se acontecer de a dupla ser o Virgílio que a história nos reserva (Santo Deus!), não haverá nem Beatriz nem Paraíso como promessas de futuro para nós, os Dantes que assistirão à destruição. Se a matéria é Justiça, teremos de falar de duas peças de teatro: “O Inspetor Geral” de Gógol, e “As Bruxas de Salém”, de Arthur Miller.
No filme de Emmerich a que aludi, há redenção e esperança, a exemplo de outros que dirigiu e que vocês podem ter visto: “Independence Day” (1996), “Godzilla” (1998) e “Independence Day – O Ressurgimento” (2016). Desde a Grécia Antiga, a função da tragédia é extremar os males dos indivíduos e do mundo para a expiação coletiva.
O gênero, no entanto, também nos reserva o deboche sem saída de “Não Olhe para Cima” (2021), de Adam McKay, e o espetacular “Melancolia” (2011), do polêmico, para dizer pouco, Lars von Trier. Note que, nesse caso, o fim dos tempos é, na verdade, uma metáfora da desesperança e do niilismo, ainda que o mundo fosse um doce de coco. É uma sorte que Von Trier tenha mantido algumas besteiras que diz em entrevistas longe de seus filmes.
Não está escrito em lugar nenhum, em suma, que, no fim, tudo dará certo. “Está, sim, Reinaldo! Lá, no Apocalipse de João.” Huuummm… A que preço! Os que investem em saídas apocalípticas estão sempre convictos de que, no fim da história, estarão alinhados com os vencedores. Sei… Para esses, ofereço como advertência “Saturno Devorando um Filho”, de Goya (imagem na abertura).
QUERO VIRAR VOTOS?
“Ah, Reinaldo, entendi. Vai tentar mudar votos de leitores acenando com o desastre…” Eu??? Acho que sou bem mais modesto do que talvez aparente. Não tenciono interferir na escolha de ninguém. E, como resta óbvio, a minha é muito clara. O que falo e escrevo circula bastante nas redes e na tal “mídia” sem pretender arrebanhar almas. Ademais, creio que a totalidade dos que me acompanham já fez a sua escolha. “E por que escreve?”
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Porque é uma espécie de carta para o futuro, com todas as suas ousadias e erros. Ainda estamos aqui, afinal. Em “Cartas a Milena”, reunião das missivas de Kafka à tradutora tcheca Milena Jesenská, o autor observa — vocês encontram uma tradução no Kindle:
“(…) escrever cartas significa expor-se nu diante dos fantasmas, que esperam por isso com avidez. Os beijos escritos não chegam a seu destino, mas são bebidos no caminho pelos fantasmas. Por meio desse alimento farto é que eles se multiplicam de modo tão descomunal. A humanidade pressente isso e luta contra. Ela inventou — para, na medida do possível, eliminar o fantasmagórico entre as pessoas e alcançar o trato natural — a paz das almas, a ferrovia, o automóvel, o aeroplano, mas não adianta nada. (…) Os espíritos não passarão fome, mas nós pereceremos.”
A excelente tradução de Torrieri Guimarães (ilustração no alto) só nos sebos, se houver.
DE VOLTA SEM NUNCA TER FUGIDO
Aparentemente, leitores, demorei um tanto para chegar ao objeto do texto, anunciado lá no primeiro parágrafo. Talvez seja uma forma de resistência à miséria intelectual que nos ameaça, como uma enchente lamacenta. De verdade, nunca saí do tema. Estou no modo “alerta”.
Já escrevi sobre o despropósito praticado por “Kássio com K” ao tirar do ar o canal “Exército de Lula” — decisão suspensa pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva; o plenário do TSE dará a palavra final. Não basta dizer que o presidente do tribunal aplicou censura sem ler. Isso é pouco. É até besteira sustentar que a não leitura está na raiz de um equívoco. Não se trata de descuido, mas de método. Ele também está mandando uma carta fantasmagórica para o que aposta ser o futuro. O conjunto, a seu modo, é… kafkiano.
JUIZ DE CHANCHADA
O que um russo do século 19 e um americano do pós-guerra têm a ver com a canetada do ministro Kássio? Tudo, meus caros!
Em “O Inspetor Geral”, de Gógol (1836), um vilarejo no interior profundo da Rússia é alertado de que um auditor do governo central desembarcará disfarçado na região. O prefeito, o magistrado, o chefe do hospital e o supervisor de ensino — todos agarrados a seus desmandos — entram em desespero. Acabam confundindo um burocrata insignificante de São Petersburgo, o pobretão Khlestakov, que visita o local, com a temida autoridade.
O rapaz, percebendo a patuscada, é esperto o bastante para sustentar o mal-entendido, passando a embolsar subornos camuflados de “empréstimos”. Ninguém precisou desmascarar os líderes locais: eles próprios se entregaram.
Dentre essas autoridades, a figura mais asquerosa é o juiz Ammos Fiódorovitch Liapkin-Tiápkin. O magistrado ostenta um chicote de montaria na antessala do tribunal, tolera gansos caminhando entre os cidadãos e aceita de bom grado filhotes de cães de caça como “presentes” inofensivos em troca de seus vereditos. Não enxerga nenhuma imoralidade em sua conduta. O juízo dele opera por conveniência, capricho e dissimulação.
O farsante acaba enviando uma carta a um amigo mangando dos larápios, mas a mensagem é interceptada e lida em voz alta pelo chefe dos Correios, um notório bisbilhoteiro. Ocorre que, logo em seguida, um oficial de justiça aparece e faz um pronunciamento: por ordem expressa do imperador, o verdadeiro inspetor geral, vindo de São Petersburgo, acaba de chegar à hospedaria local e exige a presença dos bacanas. E a peça termina com todos congelados de medo.a
Supõe-se que o juiz de chanchada se encontrará com o seu destino. Ao menos ali…
DEGRADAÇÃO TRÁGICA
Se Gógol trata a degradação do Judiciário e dos costumes como comédia de erros, a tragédia dá as caras em As Bruxas de Salém, de Arthur Miller. Olhe-se de perto parta para as persogens Elizabeth Proctor e para o juiz Danforth.
Trata-se de uma mulher decente, casada com John Proctor. Ocorre que o marido teve um caso amoroso no passado com a jovem Abigail Williams. Movida por um misto de vingança, ciúme e sadismo, a ex-amante percebe que a histeria coletiva contra a bruxaria, que tomava a cidade, é a arma perfeita para atingir aquela que considerva sua rival.
Ela descobre que a criada de Elizabeth, Mary Warren, costurou uma boneca de pano no tribunal e deixou uma agulha espetada na barriga do brinquedo para guardá-la. Sabendo disso, Abigail espeta uma agulha na própria barriga durante um jantar na casa do juiz e alega que o espírito de Elizabeth a havia atacado. Quando a polícia vai revistar a casa dos Proctor e encontra a tal agulha cravada na boneca, o tribunal aceita o objeto como uma “prova de feitiçaria”. A partir daí, o absurdo assume o controle da máquina judicial. O tribunal passa a tratar o delírio conspiratório e as alegações histéricas de Abigail como evidências absolutas, enquanto a racionalidade de Elizabeth é lida como frieza satânica. Quem assume uma culpa inexistente e chancela a narrativa oficial sobrevive; quem, como Elizabeth, sustenta a dignidade da verdade é condenada à morte. Ela só escapa do enforcamento porque está grávida.
John desmascara a farsa, mas esbarra num tribunal que já tem a sentença antes dos fatos. A peça, escrita no ápice do macartismo nos EUA dos anos 1950, culmina no dilema do marido de Elizabeth: ele aceita, inicialmente, assinar uma confissão falsa para salvar a própria vida, mas rejeita que o documento seja pregado à porta da igreja. Recusa a institucionalização da mentira, que destruiria o nome de sua família. Destrói o papel e caminha para a execução.
Nessa trama de horror, destaca-se o juiz Danforth. Ele comanda o tribunal convicto de ser o próprio instrumento da vontade divina na Terra. Rejeita por princípio a dúvida razoável porque isso implicaria admitir a possibilidade do erro. Prefere enforcar inocentes a admitir que o tribunal foi ludibriado. Os que dizem julgar sob inspiração divina servem apenas à própria certeza. Um sistema judicial que ignora o rito, que atropela o direito de defesa e que se guia por crenças ideológicas prévias não faz justiça: investe deliberadamente na barbárie.
O DIA DEPOIS DE AMANHÃ
Volto, então, ao começo, porque nunca saí dele. Se Kássio e Mendonça forem mesmo os Virgílios que a história nos reserva, convém que nós cheguemos ao inferno sabendo quem nos guia.
A depender do que aconteça, o dia depois de amanhã já foi escrito pela história, pela literatura, pelo drama. Mando esta carta ao futuro, ainda que venha a ser bebida por fantasmas. E daí? Mantenho o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade. Não resistir não é e nunca foi uma opção.

