Na reta final, detalhamento ajuda a entender o que está em jogo e o que ainda pode mudar

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Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final empatados nas pesquisas. Mas o empate no agregado esconde padrões nacionais bem definidos, que ajudam a entender o que está em jogo e o que ainda pode mudar. Estes são os dez grandes temas da eleição até aqui.

1. A eleição ainda não esquentou

A reta final começa com a campanha morna. O número de indecisos segue alto, e o interesse do eleitor pela eleição ainda é baixo, embora venha aumentando.

Isso significa que parte relevante do eleitorado só vai decidir nos últimos dias. Cerca de 10% dizem que decidem seu voto na última semana da eleição e outros 10% de eleitores tomam a decisão final apenas no dia da votação.

O quadro estável nas pesquisas convive, portanto, com um resultado ainda em aberto.

2. Um incumbente que não colhe a economia

Lula fugiu do ciclo eleitoral clássico, em que o governo aperta as contas no início do mandato e abre o cofre perto da eleição. O 8 de janeiro interrompeu a lua de mel presidencial logo na largada. Depois, a polarização permanente virou a lente pela qual o eleitor interpretou tudo o que aconteceu nos quatro anos seguintes.

O governo ficou sob pressão constante para gastar, sem que isso se convertesse em melhora da avaliação. O resultado é um paradoxo: pela primeira vez, um presidente tenta a reeleição com o menor desemprego da série e renda recorde, e mesmo assim está empatado com seu adversário. A aprovação presidencial, que teve saldo positivo nos dois primeiros anos, virou saldo negativo nos dois últimos.

Com apenas 10% dos eleitores dizendo que sentiram sua renda aumentar mais do que seu custo de vida, os bons números oficiais da economia não se transformaram em bônus eleitoral para o incumbente até aqui.

3. Política social sem pacto social

Quando o Bolsa Família foi criado, havia um consenso de que a miséria era inaceitável e de que o programa era necessário. Esse pacto se desfez. Hoje, as políticas sociais alimentam ressentimento na classe mais alta, que se vê pagando a conta da redistribuição sem acreditar que quem recebe mereça o benefício.

Na outra ponta, os mais pobres passaram a enxergar os benefícios como um direito, e não como um favor. Por isso não retribuem com gratidão eleitoral automática. O investimento social cresceu, mas o retorno eleitoral não veio junto.

4. Duas apostas partidárias: presidência ou bancada

PT e PL apostam que a disputa presidencial é a mais importante e que é dela que virá a força eleitoral desses partidos para eleger as maiores bancadas na Câmara. Os demais partidos fizeram o cálculo oposto e concentraram recursos na eleição de deputados federais.

A lógica é a de uma conexão eleitoral perfeita. Os deputados enviaram emendas aos prefeitos, que as transformaram em melhorias locais e se reelegeram em 2024. Agora esses prefeitos são cabos eleitorais fiéis de quem os abasteceu.

Eleição ainda não esquentou; cerca de 10% dizem que decidem seu voto na última semana

5. No Senado, governo local e voto ideológico

A disputa pelo Senado segue outra regra. A direita faz campanha contra o Supremo e a esquerda, a favor do fim da escala 6x1. Mas o voto parece mais alinhado à força do governo estadual e à preferência ideológica na eleição presidencial.

O quadro está longe de definido. Em média, 80% dos eleitores não sabem em quem vão votar para senador na pergunta espontânea, e 22% seguem indecisos na estimulada.

Se nem o eleitor sabe ainda em quem vai votar, o que as pesquisas revelam de forma muito acurada é que há espaço para surpresas de todo tipo.

6. Nos Estados, a regra é resolver logo

Nas disputas para governador, o eleitor parece querer encerrar a eleição no primeiro turno. O número médio de candidaturas ao governo caiu de 8,3 em 2022 para 7,2 em 2026, e a polarização chegou também às disputas estaduais.

As pesquisas da Quaest indicam que 11 estados têm um favorito claro para vencer no primeiro turno e que outros 4, acirrados, também podem terminar ali. Em 2022, foram 14 eleições decididas no primeiro turno.

O impacto na corrida presidencial é claro. Em média, a abstenção aumenta quando não há governador em disputa no segundo turno. Quem vencer já em 4 de outubro vai ter que adiar as férias se quiser mesmo ajudar seu aliado na eleição presidencial.

7. A calcificação continua

A eleição nacional nunca deixou de ser sobre Lula e Bolsonaro. A calcificação que Thomas Traumann e eu descrevemos no livro “Biografia do Abismo”, de 2023, permanece. A intenção de voto em Lula em cada um dos 26 estados e no DF é altamente correlacionada com o percentual que ele teve em 2022, e o mesmo vale para Bolsonaro.

Essa rigidez aumenta o peso dos cerca de 30% de eleitores independentes. Esse eleitor pêndulo, que já votou em Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022. Hoje, um terço deles não pretende votar em ninguém. Os outros 2/3 estão indecisos, votam um pouco em Lula, em Flávio, ou escolhem entre Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.

Muitos desses eleitores gostariam de uma alternativa. Mas a literatura indica que parte deles, não todos, deve migrar na reta final para Lula ou Flávio, num voto útil para impedir a vitória de quem mais temem.

8. Escândalos que não movem o voto

Eventos críticos que, em tese, poderiam mudar o rumo de uma eleição não moveram o voto até aqui. O caso Master, o episódio Flávio-Vorcaro (“Dark Horse”) e a crise do STF tiveram ampla cobertura, mas efeito passageiro. Flávio se recuperou e consolidou a direita. Investigações sobre Lulinha, do outro lado, não mudaram o rumo central da disputa, e o presidente continuou com seu core voter intacto.

É a consequência prática da calcificação. O eleitor filtra o escândalo pela lente do seu lado, as narrativas que circulam dentro de cada bolha ganham mais força explicativa, quase como teorias da conspiração, no que a literatura chama de raciocínio motivado.

9. O Sudeste e o Branco/Nulo viraram campo de batalha

A eleição se decide nas grandes cidades do Sudeste. Em 2018, Bolsonaro venceu porque, pela primeira vez, sua vantagem nessas cidades superou a diferença que o PT costumava abrir no Nordeste. Em 2022, ele ainda venceu nas grandes cidades do Sudeste, mas por uma margem pequena demais para compensar a vantagem nordestina de Lula.

O curioso é que Bolsonaro perdeu mesmo tendo mais votos de uma eleição para outra. Um estudo de Jairo Nicolau mostrou que Bolsonaro teve 57,7 milhões em 2018 e 58,1 milhões em 2022. Lula, por sua vez, obteve 13,2 milhões de votos a mais que Haddad, 5 milhões deles nas cidades com mais de 500 mil habitantes. Foi justamente nessas cidades que Bolsonaro perdeu cerca de 1,15 milhão de votos.

A diferença veio de quem não costuma entrar na conta. Os votos brancos e nulos caíram de 9,6% para 4,6% do comparecimento no segundo turno, uma redução de 5,4 milhões, concentrada nas cidades onde Bolsonaro mais recuou. Somado ao crescimento de cerca de 9 milhões no eleitorado, esse movimento ampliou a cesta de votos da qual Lula foi o maior beneficiário.

Para 2026, a lição é dupla. Lula precisa repetir o desempenho de 2022 nas metrópoles do Sudeste. Flávio precisa recuperar o espaço que foi do pai em 2018. Ambos precisam conquistar esse eleitor que votou branco e nulo em 2018. O eleitor que em 2022 trocou o voto de protesto por um candidato pode voltar a anular, desfazendo um dos motores daquela vitória.

10. Religião e sexo dividem tanto quanto renda e região

A divisão do voto por religião e por sexo se consolidou. Hoje esses dois fatores separam os eleitores de Lula e de Flávio tanto quanto renda e região, que tradicionalmente organizavam a disputa.

Na última pesquisa da Quaest, Lula liderava por 9 pontos entre católicos e Flávio liderava por 30 pontos entre evangélicos. A vantagem de Lula entre as mulheres era de 7 pontos, a vantagem de Flávio entre os homens era de 11 pontos. O gap religioso que começou em 2018 parece que vai se repetir e ganhou contornos ainda mais interessantes com a discussão nas redes sobre a padroeira do Brasil. O gap de gênero, que apareceu forte em 2022, é chave para entender a força/fraqueza de Lula nessa disputa.

A menos de 10 dias para o primeiro turno, são esses os 10 padrões que me parecem decisivos para entender essa eleição.

O mapa da polarização ficou mais complexo, e o empate no agregado esconde divisões cada vez mais nítidas por baixo dele.

Felipe Nunes é diretor da Quaest

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