A medicina nunca teve tantas ferramentas para tratar a obesidade. As canetas emagrecedoras revolucionaram o tratamento farmacológico, ampliaram as possibilidades de controle da doença e trouxeram esperança para milhões de pessoas.Mas, neste 11 de outubro, Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, uma pergunta merece atenção: será que os avanços científicos também tornaram mais fácil viver com obesidade?Afinal, enquanto os medicamentos evoluem, o preconceito parece ganhar uma nova roupagem. O antigo “é só fechar a boca” começa a dividir espaço com outra cobrança: “é só tomar uma caneta”.A avaliação é da psicóloga Andrea Levy, cofundadora do Instituto Obesidade Brasil, que vive com a obesidade controlada desde 1999 e acompanha de perto os impactos do estigma na saúde mental.Para ela, os novos medicamentos ajudaram a demonstrar que a obesidade envolve mecanismos biológicos relacionados à fome e à saciedade. Mas isso não significa que a sociedade tenha deixado de responsabilizar quem vive com a doença.Os avanços são reais. Medicamentos que atuam sobre o sistema GLP-1 ampliaram as possibilidades terapêuticas, mas não substituem a necessidade de acompanhamento individualizado.O Dr. Erinaldo Landim, especialista em cirurgia do aparelho digestivo, cirurgia bariátrica e cirurgia geral, lembra que a obesidade continua sendo uma condição crônica, multifatorial e recidivante. Por isso, o tratamento pode envolver medicamentos, mudanças de hábitos e, quando indicada, cirurgia bariátrica.Para ele, as canetas e a cirurgia não são métodos excludentes. Em determinados casos, podem até ser utilizados de forma complementar, inclusive para controlar o reganho de peso após a operação. A resposta aos medicamentos também varia. Nem todos alcançam os mesmos resultados, e o acompanhamento precisa considerar efeitos adversos, alimentação e preservação da massa muscular.Andrea reforça que o avanço dos medicamentos não pode criar a expectativa de que todas as pessoas devam utilizá-los ou apresentar os mesmos resultados: “Os medicamentos representam um avanço extraordinário, mas não são uma solução universal, não são indicados da mesma maneira para todas as pessoas e não eliminam a necessidade de acompanhamento e cuidado individualizado.”A psicóloga chama atenção para um risco que vai além das questões clínicas: “Além disso, existe uma questão que considero fundamental: o acesso a um medicamento não pode se transformar em uma nova obrigação moral. A pessoa não deve ser julgada porque usa medicação, porque não usa, porque não pode pagar ou porque não obteve o resultado esperado.”E é justamente nessa expectativa de uma solução simples que pode surgir uma nova forma de sofrimento. “O ser humano tem a tendência de acreditar em supostos e tentadores milagres para os seus problemas. Esse tipo de pensamento pode provocar mais culpa, vergonha, frustração e isolamento.A pessoa começa a pensar: ‘Se agora existe um tratamento tão eficaz, por que eu ainda não consegui emagrecer?’. E essa pergunta, que parece simples, pode gerar e acrescentar um sofrimento enorme ao que já é difícil”, explica Andrea.Nas redes sociais, histórias de emagrecimento se multiplicam. O dr. Erinaldo Landim observa que “a sociedade parece mais inclinada a cuidar da saúde, melhorando a alimentação, consumindo menos álcool, praticando mais atividade física”.Mas essa preocupação crescente com a saúde não significa que todos tenham as mesmas condições de acesso aos cuidados. Para o médico, é preciso ir além: “Para avançarmos, é necessário facilitar o acesso a camadas menos privilegiadas da sociedade a recursos e medicamentos”.Por trás das transformações corporais exibidas nas redes, existe uma realidade que nem sempre aparece: o custo dos medicamentos, das consultas e do acompanhamento necessário.“Quando observamos apenas as pessoas que conseguem pagar medicamentos, consultas particulares e acompanhamento multidisciplinar, corremos o risco de confundir uma realidade privilegiada com a realidade brasileira”, alerta Andrea.O dr. Erinaldo também chama atenção para a necessidade de ampliar o acesso aos medicamentos e reduzir as dificuldades enfrentadas por pacientes que aguardam cirurgia bariátrica na rede pública. Mas a desigualdade financeira não é a única barreira. A cobrança social pelo emagrecimento pode aumentar a culpa e a frustração de quem não consegue tratar a doença ou não responde como esperado.Neste Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, temos motivos para reconhecer os avanços da medicina. Mas também precisamos lembrar que a existência de tratamentos mais eficazes não elimina a complexidade da doença nem justifica o julgamento de quem vive com ela.O avanço da ciência só se transforma em avanço social quando seus benefícios chegam a quem precisa deles. E talvez esse seja o próximo grande desafio: fazer com que a evolução no tratamento da obesidade seja acompanhada por mais acesso, compreensão e respeito.✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp











