Matheus Leitão

Lobista diz que filho de Lula era amigo de chefe da Mota-Engil, empresa responsável pelo túnel de R$ 7,8 bi licitado pelo governo paulista

Matheus Leitão
18/10/2026 13:04
Divulgação/Governo de São Paulo
Poucas obras foram tão exibidas por Tarcísio de Freitas quanto o Túnel Santos–Guarujá. O governador chama o projeto de sonho centenário, colocou a obra no balanço de sua gestão antes mesmo de assinar o contrato e já promete o primeiro túnel imerso do Brasil pronto em 2031. Foi justamente a empresa que executa esse troféu que a lobista Roberta Luchsinger levou à televisão neste sábado (17), mas com outro personagem no centro da história, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A digital de Tarcísio está em cada etapa do túnel. Ainda ministro de Bolsonaro, ele incluiu o Porto de Santos no programa de desestatização. Já governador, enviou à Assembleia o projeto de lei que autorizou a parceria público-privada. Em janeiro de 2024, fechou com Lula a divisão do custo meio a meio, num acordo costurado pelo ministro Silvio Costa Filho, seu colega de Republicanos. Em abril de 2025, foi a Lisboa apresentar o projeto a investidores e esteve na comitiva que se reuniu com a cúpula da Mota-Engil.
A licitação também foi paulista. A Secretaria de Parcerias em Investimentos conduziu a concorrência, declarou a Mota-Engil vencedora e o governo homologou o resultado em novembro de 2025. Em 28 de janeiro, Tarcísio assinou o contrato com o grupo português num anúncio feito só pelo estado, o que gerou queixa da Autoridade Portuária de Santos. Depois vieram R$ 561 milhões numa conta para desapropriações, um crédito suplementar de R$ 2,64 bilhões e um financiamento de R$ 2,57 bilhões com o Banco do Brasil.
O troco de Roberta
A oito dias do segundo turno e na véspera do debate da Band, Roberta deu sua primeira entrevista à TV desde o início das investigações, à CNN Brasil. Ela e Lulinha são investigados pela Polícia Federal no caso das fraudes do INSS. A raiva tem origem conhecida. Em agosto, na sabatina da Globo, Lula a chamou de pilantra e disse nunca tê-la visto, apesar de fotos dela ao lado do presidente e de Janja. Em outubro, no Flow Podcast, ele foi além e a apelidou de “Vorcaro feminino”.
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Na CNN, Roberta devolveu com fúria. Chamou Lula de canalha, covarde e mentiroso, prometeu delação premiada e disse estar sendo ameaçada.
A insinuação mais grave mirou a Mota-Engil. Segundo ela, Amauri Rodrigues Pinha, presidente do conselho da empresa no Brasil, era vizinho e amigo de Lulinha, e os dois se reuniam com frequência, inclusive na casa dela. Falou ainda de uma empreiteira com contrato de dois bilhões no país. Perguntada se viu os dois tratarem de negócios, recuou. “Não sei, porque era em porta fechada”, respondeu, admitindo não ter informação sobre irregularidade.
Que contrato é esse
Roberta associou a amizade entre Lulinha e Amauri a enlaces profissionais, como se Lulinha atuasse como lobista da empresa comandada pelo amigo. Disse também que essa proximidade teria aberto portas no governo federal para a Mota-Engil. O valor de dois bilhões que ela citou, porém, não corresponde exatamente a nenhum contrato conhecido da empresa.
O túnel é, de longe, o maior negócio da Mota-Engil no Brasil. A empresa venceu o leilão em setembro de 2025, na B3, com desconto de apenas 0,5% sobre a contraprestação anual. A única rival, a espanhola Acciona, não ofereceu desconto algum. A obra hoje está estimada em R$ 7,8 bilhões, com aportes públicos de cerca de R$ 2,6 bilhões da União e R$ 2,7 bilhões de São Paulo. Sozinho, o contrato responde por mais da metade da carteira da empreiteira no país. Entre os contratos públicos conhecidos da Mota-Engil no Brasil, é também o único que, isoladamente, ultrapassa R$ 2 bilhões de investimento do governo federal.
Do lado federal, Alckmin, Haddad, Silvio Costa Filho e Márcio França estavam na B3 no dia do leilão. Amauri Pinha teve reuniões registradas no BNDES, uma delas na véspera da assinatura do contrato. Em março, o TCU travou o repasse da União por falta de regras de controle e só o liberou em maio. Resta saber se Roberta tem realmente documentos que provem que Lulinha atuava em nome dessa empresa e quais foram os contratos de sua atuação.


